ALPES CCTVM
O ano de 2014 já começa agitado e as notícias não são nada animadoras. Após as crises financeiras nos EUA e na Europa, agora são os emergentes que est
ão no foco dos investidores. A China tem mostrado sinais de desaceleração mesmo em um cenário de alta alavancagem de sua economia. O Banco Central chinês mostra-se disposto a reduzir essa alavancagem do gigante asiático, reduzindo as injeções no mercado aberto, o que leva as projeções a apontarem em crescimento menor que 7% para a China este ano. Essa desaceleração de nosso principal parceiro comercial deve reduzir o apetite de compra e provocar um ajuste nos preços das commodities, podendo prejudicar as relações de troca de nossa balança comercial e agravar a questão do déficit externo. Vale destacar que em 2013, o Brasil registrou déficit em transações correntes recorde de 81,374 bilhões de dólares em 2013, com o rombo não sendo financiado pelos Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) pela primeira vez desde 2001.
Somado a este cenário de desaceleração chinesa, o Federal Reserve voltou a anunciar uma nova redução de US$ 10 bilhões nas compras mensais realizadas pelo órgão, passando assim de US$ 75 bilhões para US$ 65 bilhões. Durante janeiro, com a divulgação de alguns dados mistos da economia americana, como o payroll, que veio abaixo das projeções, alguns agentes cogitaram a manutenção do ritmo de compras pelo FED. Tal expectativa não foi confirmada e as reduções das compras mensais devem continuar gradativamente já sob o comando de Janet Yellen. Assim, com a redução de liquidez dos mercados, os países emergentes que não avançaram nas reformas estruturais de sua economia, sofrem com a ameaça de fuga de capitais em massa.
Dentre o bloco de emergentes em dificuldades, destaca-se a Argentina, cuja moeda sofreu forte desvalorização no início deste ano, fato que levou o governo local a voltar a permitir a compra de dólares por parte da população. A crise do nosso terceiro parceiro comercial e um dos principais destinos de nossas manufaturas coloca mais pressão sobre nossas contas externas e contagia o mau dos investidores com o grupo de emergentes. Turquia, Ucrânia, Tailândia, África do Sul, Índia e o próprio Brasil também são monitorados de perto por investidores. Apesar disso, a situação hoje é muito melhor do que a vivida no final dos anos 90, quando houve crise nos países em desenvolvimento. Isto porque os emergentes contam hoje com grandes reservas internacionais (aproximadamente US$ 7,7 trilhões), menor endividamento público e déficit externo do que naquele período.
Porém, o movimento de saída de capitais começa a ganhar mais força. Segundo dados divulgados pelo banco Morgan Stanley e publicados pela mídia, na última semana de janeiro, foram retirados US$ 6,33 bilhões das carteiras de renda variável em países emergentes. No Brasil, segundo dados da BM&FBovespa, até o dia 29 de janeiro, saíram R$ 739 milhões de investimentos estrangeiros em renda variável.
Para reduzir o movimento de fuga dos investimentos estrangeiros, os bancos centrais de países emergentes tem realizado um ciclo de aperto monetário. Neste grupo estão países como Índia, Turquia, África do Sul e o Brasil. Este mês, novamente, o Copom elevou em 0,5% a taxa de juros, cuja meta agora está em 10,5%, sexto aumento consecutivo promovido pelo Comitê desde abril do ano passado. Porém, com a situação dos emergentes em xeque, as projeções começam a apontar um ciclo mais longo de aperto monetário aqui no país. Este movimento pode contribuir para reduzir a saída de capitais do país, porém, tende a pressionar para o baixo crescimento de nossa economia. Na última pesquisa Focus, o crescimento projetado para o país este ano já ficou abaixo de 2%. Enquanto isso, a inflação ainda tem se mostrado resistente, movimento também destacado pelo Bacen na última ata divulgada, e projeta-se algo próximo a 6% para o ano.
A questão fiscal do País permanece como prioridade no radar dos investidores. O Governo divulgou que o superávit alcançado em 2013 foi de R$ 75,3 bilhões ou 1,9% do PIB. A meta fixada pelo governo e posteriormente abandonada era de 2,3% do PIB. Porém, excluindo da conta, as receitas extraordinárias e os dividendos distribuídos pelas estatais, o superávit estrutural ficaria por volta de 0,6%. A meta para 2014 ainda não foi divulgada, a expectativa é que o governo a divulgue este mês. O cenário de eleições a frente agrava a situação e coloca ainda mais pressão sobre o governo. Mais do que uma projeção inflada, o mercado espera uma melhor comunicação entre os agentes governamentais e o mercado apontando um resultado estrutural crível. Neste sentido, notícias dão conta de uma reunião com os principais agentes financeiros do país para discutir o cenário econômico com membros da equipe econômica. Além disso, a presença de Dilma Rousseff no fórum internacional de Davos tentando tranquilizar investidores de todo mundo é sinal de maior esforço dessa interlocução.
Essa busca de uma melhor comunicação se faz ainda mais necessária quando levado em conta um possível rebaixamento do rating nacional. A agência Standard & Poor’s abriu a possibilidade de realizar esse corte na nota da País ainda em 2014. Este seria um agravante para a confiança dos investidores mundo afora, em meio a questionamentos da credibilidade dos emergentes e redução da liquidez global. Assim, evitar esse possível rebaixamento seria altamente recomendável. Por outro lado, a Moody’s confirmou em janeiro a perspectiva estável para o rating do País, o que praticamente descarta um corte este ano pela última.
Saindo do cenário interno, este mês de fevereiro deve trazer à tona novamente a questão do endividamento do governo norte-americano. De acordo com os últimos cálculos do Tesouro, o limite da dívida do país, de US$ 16,7 trilhões, previamente calculado para ser alcançado no início de março, foi antecipado para o dia 07 de fevereiro. As discussões dentro do Congresso americano, tradicionalmente bastante difíceis, têm componentes para apimentar ainda mais essa situação. O primeiro é a queda da aprovação do governo Barack Obama, e o segundo, as eleições legislativas marcadas para novembro deste ano.
Na Europa, os países parecem avançar com as reformas para sair da crise instaurada no continente. Os últimos dados divulgados mostram que o PMI da indústria e serviços encontra-se no maior nível em mais de 2 anos, com a Alemanha puxando essa recuperação, e a França constando como destaque negativo. Apesar da difícil situação vivida pela França, a Moody’s não rebaixou o rating do país este mês, como esperado. Em relação às captações, o mercado parece voltar os olhos novamente a continente. Os yields dos bonds de Itália, Portugal e Espanha estão no menor nível em um horizonte de um ano. Ainda, a Itália recentemente realizou uma emissão com o menor custo desde a adoção do euro.
Sobre a Ásia, já citamos a situação da China anteriormente. No Japão, o programa monetário promovido pelo BoJ tem mostrado eficácia. A inflação do país fechou 2013 em 1,6%, a produção industrial e o varejo têm mostrado recuperação. Vale monitorar, porém, as crescentes tensões políticas entre Japão e China, as duas maiores economias da região, indicando turbulência à frente.