Paul Wallace
... seria muito difícil para a Zona do Euro
A crise de dívida da região do euro, que começou como um pequeno problema local na Grécia no início de 2010, será uma questão existencial em 2012. Uma abordagem de empurrar com a barriga deve prevalecer (por pouco). Políticos europeus procrastinadores podem não fazer o suficiente para manter a moeda única intacta. Mas o Banco Central Europeu (BCE), soba nova liderança de Maria Draghi, da Itália, pode agir rapidamente e com poder de fogo massivo, criando dinheiro, caso a alternativa seja o desmanche da Zona do Euro.
Mas, se empurrar com a barriga é o resultado mais provável, o risco de desmanche é incomodamente alto. A sobrevivência da moeda única na sua condição atual não é mais uma certeza. A região do euro pode fragmentar-se. Em tese, isso poderia acontecer de dois modos: um êxodo liderado pela Alemanha dos países nórdicos de crédito bom ou a saída forçada das nações insolventes, Grécia à frente. Mas, na prática, só uma dessas opções é plausível. A Alemanha não vai destruir o euro e assim ameaçar a própria União Europeia. O desmanche, caso aconteça, terá início com a saída da Grécia.
Pobre, pobre Grécia
As políticas de austeridade gregas podem ser o fator determinante. O tumulto que emana de Atenas nos dias depois do pacote de resgate criado na cúpula europeia, em outubro, demonstrou isso dramaticamente. Suponha que o pacote seja implementado. E suponha que a perda de 50% sobre o valor de face dos títulos em mãos de credores privados impeça o crescimento da já esmagadora dívida (ela iria saltar de 162% do PIB em 2011 para 183% em 2012): vai demorar até 2020 para cair até 120%, um nível ainda opressivo. Os gregos vão enfrentar um ano com dificuldades desesperadoras, com a economia que continua a encolher depois de três anos de recessão que, cumulativamente, contraíram o PIB em 12%. E o esforço para tornar-se competitiva o suficiente para poder lidar com os rigores da moeda única continua gigantesco, já que custos internos precisam cair perto de 25%.
Na medida em que se intensificam as dificuldades e os distúrbios sociais, um surto de nacionalismo grego indignado pode disparar um calote ainda mais amplo e uma saída de cena. Defensores de uma saída grega da região do euro apontam para o exemplo argentino depois que o experimento de uma década de dolarização da economia terminou em um enorme calote e depreciação em 2001 e 2002. Depois de mais queda, a economia da Argentina cresceu 9% em 003 e continuou expandindo ao redor dessa taxa até ser atingida pela crise financeira de 2008 e 2009.
Porém, os danos de curto prazo que a Grécia pode sofrer seriam maiores e o país não se beneficiaria do boom de commodities que ajudou a Argentina. Qualquer indicação de saída da moeda única, onde empréstimos internos e depósitos seriam convertidos em novos dracmas, transformaria a retirada lenta de depósitos (que caiu 10% na primeira metade de 2011) em uma corrida generalizada aos bancos, derrubando o sistema financeiro grego. Dívidas a credores estrangeiros disparariam, enquanto o dracma se desvalorizaria em relação ao euro. O governo poderia se salvar ao redenominar seus títulos em dracmas, mas empresas com dívidas em euros sob contratos regidos por legislação estrangeira continuariam encrencadas, o que as levaria ao calote ou à falência.
Pior, a Grécia pode se ver excluída da UE também. A adoção do euro era para ser irrevogável, um "Hotel Califórnia" onde ninguém pode ir embora. Uma vez que os tratados europeus não estabeleceram termos pelos quais um país pode deixar a moeda, alguns advogados insistem que tal saída implica retirar-se da UE também. Embora a política possa se sobrepor a tais legalidades, uma saída mal-humorada prejudicaria um acordo amigável. A Grécia poderia perder não só os valiosos fundos de apoio regional do orçamento da UE: e o acesso ao mercado único europeu, eliminando a vantagem do desvalorizado novo dracma.
E isso é só o que a Grécia enfrentaria. O perigo maior em 2012 é que a saída grega pode precipitar estresses insuportáveis pela região do euro como um todo. Depositantes em outras economias vulneráveis podem ficar com medo e sacar os seus recursos desses sistemas financeiros. Pode ser algo administrável caso se restrinja à Irlanda e Portugal, duas outras economias pequenas e salvas pelo BCE. Mas seria demais se as corridas bancárias se alastrassem para a Itália e a Espanha. Os bancos franceses também poderia se ver sob ameaça. Em princípio, o BCE poderia combater tais corridas com injeções massivas de liquidez. Mas uma ação dessas seria controversa e sua determinação poderia ser enfraquecida pelo medo dos grandes prejuízos que o banco poderia incorrer.
Preocupações om calotes, falências bancárias e colapso econômico decorrentes de um desmanche - sem falar no golpe devastador na noção europeia de "união cada vez mais estreita" - são as razões mais fortes para se esperar que os líderes europeus eventualmente elaborem uma saída para a crise. Porém, acidentes acontecem. E a incerteza vai prejudicar a economia da região do euro, mesmo que funcione a estratégia de empurrar com a barriga.
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